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1 de maio de 2010

UM 1º DE MAIO QUE ESQUECE PARTE DOS TRABALHADORES

Então neste sábado é mezzo-feriado, graças ao Dia do Trabalho / Dia do Trabalhador, conforme o ângulo por onde se esteja olhando. Sendo o trabalho mais que uma mera ferramenta da subsistência, mas um ato moral com o qual se obtém respeito e credibilidade, parte dos trabalhadores não são vistos como tal. Estão abaixo de qualquer empregado ou patrão, sem direitos ou Fundo de Garantia, com uma aposentadoria atrelada à morte ‘humanitária’.

Quem puxa uma carroça por horas a fio, ferrado nos cascos e na boca, é um cidadão invisível no cotidiano ‘coelhinho-da-Duracell’ das grandes cidades, presença obrigatória no mecanismo cruel que faz sumir o lixo da frente da casa de cada morador. Não é uma atividade voluntária, e do potro que recebe ‘lições de conduta’ até o cavalo adulto que sofre, sedento, pela burocracia pança-cheia, é uma triste linha de vida. Em paralelo aos que conduzem a carroça.

Alguns glamourizam e ideologizam a coisa toda, como se a carroça fosse símbolo de auto-afirmação valente e política, que não se curva ‘aos poderosos’. Sem esses óculos de lentes cor-de-rosa, o que se vê são miseráveis explorados por alguns um pouco menos miseráveis, sucessivamente, até chegar em um rico empresário, que pinga centavos pelo quilo do lixo valioso. Filhos de carroceiros condenados a também, e somente, ser carroceiros, e basta um olhar atento para vermos que o ‘pra valer’ começa na idade escolar.

Esse nó social se sustenta pelo baixo custo de manutenção de um cavalo, que, ‘amigo do homem’, trabalha de Sol a Sol comendo e bebendo pouco, sem assistência e nem sinal de liberdade, abençoado – muitas vezes – pela morte súbida, precoce e rápiada, no asfalto quente e imundo da Capital. Não sofre mais, pelo menos.

Alguns abnegados ainda correm atrás, no ritmo enxuga-gelo, para socorrer os cavalos estourados pelo expediente forçado, sem remuneração nem escolha. Ficar preso em um aparato de amarras, cordas e ferros, movimentando um veículo instável e pesado cheio de entulho – e mais um, dois ou mais humanos – sem ter pecados a pagar, deve ser uma sensação e tanto. Quando um sapato aperta, eu penso na exaustão eqüina sem chance de defesa, argumentação fiolosófica, pedido de um copo d’água ou mesmo ‘chamar um guarda’.

E como os que puxam carroça, muitos animais foram cooptados pelo RH da humanidade, à força, e fazem o mundo girar no ritmo de seu cansaço. As cenas do trabalho rural com diversos animais não-humanos tomando parte na ativdiade sempre foram captadas pelas lentes sensíveis de fotógrafos para exalar bucolismo, e raramente denúncia. São cachorros cuja vida se mede no comprimento da eterna corrente, são as bestas de carga, os que correm atrás dos rebanhos etc. Escravos que cuidam e manejam outros escravos, presos que estão à prórpia condição de terem sido subjugados ou frustrados nas primeiras tentativas de liberdade, pela mão humana.

Esse patrão exigente que drena a vida de seus comandados, e que descansa no 1º de Maio.

Fonte: ANDA

23 de março de 2010

PARA PUNIR O ANIMAL, DIRETOR DE TV VENDE O PRÓPRIO CAVALO PARA PUXAR CARROÇA

Há cerca de um ano e meio, o diretor, roteirista e fotógrafo Estevão Ciavatta, que também é marido da atriz Regina Casé, sofreu um acidente ao cair de seu cavalo. O animal estava com Estevão havia dez anos, sempre disponível, a postos para atender suas necessidades. Certo dia, “ousou” desobedecer ao comando do seu montador. A consequência foi a queda de Estevão, que ontem deu a seguinte declaração a O Globo sobre o ato de seu cavalo:

“Popó era meu há dez anos. Naquele dia, andei um quilômetro, saltei e remontei. Ele quis retornar à cocheira. Quando virei-o para o lado que eu queria ir, ele deu um pinote. Agarrei-me ao pescoço e, ao voltar meu corpo para ficar ereto, ele repetiu o gesto e me jogou lá de cima. Popó estava inquieto porque ficara seis meses sem ser montado. Vendi-o. Ele está pagando. Tinha vida mansa, agora está ralando para burro, puxando carroça. (Risos)”


Mais um triste exemplo da finalidade à qual são destinados os animais: o cavalo servira de escravo durante uma década. Nenhum direito lhe era concedido, apenas o dever se manter submisso às ordens de quem o tutelava. Com a liberdade totalmente tolhida, não se permitia a possibilidade ao animal de agir conforme a sua natureza, assim como ocorre com a maioria dos equinos sob responsabilidade humana: ou servem para puxar carroça, ou de montaria, ou como meio para apostas, jogos ou corridas. Não se cogita, por exemplo, que um dia o animal tenha uma dor, uma indisposição, como todo ser humano, vez por outra, também tem. Considera-se o animal uma máquina pronta para trabalhar, com suas próprias vontades e direitos desconsiderados por completo.


Quando o cavalo se rebela por um dia, o que é perfeitamente compreensível (afinal qual escravo não sonhou com a abolição e planejou fugas durante toda sua vida?), seu tutor revela a relação descartável com quem lhe fora fiel por tantos anos: castiga-o, como se o que cometera fosse um crime, e o coloca em situação ainda pior, à mercê de maus-tratos, mais sofrimento ao destinar-lhe a puxar carroça. E ainda por cima faz chacota da situação.


Caso queira manifestar sua indignação, o e-mail é: revistaoglobo@oglobo.com.br